Marcos de Sertânia
Marcos de Sertânia — A Memória do Sertão Esculpida em Madeira
Nascido e criado em Sertânia, no sertão de Pernambuco, Mestre Marcos de Sertânia transformou a madeira numa extraordinária linguagem de memória. O contacto com a escultura começou ainda na infância, junto do avô e dos tios, também artesãos. A partir das lembranças da vida rural — do trabalho, da seca, dos animais e das dificuldades enfrentadas pela sua comunidade — desenvolveu um estilo inconfundível, marcado por corpos longos, esguios e deliberadamente desproporcionais.
Entre as suas criações mais emblemáticas estão os Cachorros Baleia, esculturas de uma elegância singular, quase etérea. Embora tenham nascido das memórias do próprio artista — dos cães que acompanhavam as famílias sertanejas. Magros, alongados e de expressão silenciosa, os cães carregam muito mais do que a imagem da escassez. Representam fidelidade, afecto e resistência. No universo sertanejo retratado pelo mestre, o cão acompanha o homem, partilha a caminhada e enfrenta a mesma adversidade. É, nas palavras do próprio artista, uma presença íntima e fiel — uma criatura que, mesmo perante a dureza da paisagem, permanece ao lado da família.
A figura feminina, por sua vez, remete para a mulher sertaneja, tantas vezes retratada por Marcos com o corpo alongado e um recipiente de água à cabeça. É uma imagem profundamente ligada à sua infância e à memória da própria mãe, que, como tantas mulheres da região, percorria longas distâncias em busca de água. Nela encontramos não apenas a dureza da seca, mas também a força, a dignidade e a capacidade de cuidar e sustentar a vida perante a adversidade.
É precisamente nessa tensão entre fragilidade e força que reside a beleza da obra de Marcos de Sertânia. A madeira torna-se testemunho de uma paisagem árida, mas também de um povo que persiste. Os seus personagens parecem frágeis à primeira vista; contudo, a sua verticalidade sugere movimento, resistência e continuidade.